Todos nós aplicamos os racionais causal e effectual (causal and effectual reasoning*) nas nossas vidas pessoais e profissionais, mas com diferentes intensidades e aplicadas de maneiras diferentes, nos fazendo empreendedores diferentes. Existe uma combinação ideal dos dois racionais que faria uma pessoa ser um empreendedor melhor? Não, óbvio que não. No entanto, entender os racionais causal e effectual certamente melhorará nossa habilidade de empreender. Segundo Saras Sarasvathy, os melhores empreendedores são capazes de aplicar e bem os dois racionais.
Causal reasoning tem uma meta como ponto de partida. Desenha-se e executa-se um plano para atingir a meta da forma mais efetiva e eficaz imaginável. Causal reasoning pode ser um processo criativo, envolver alternativas, buscar diferentes estratégias e cenários. Normalmente envolve a elaboração de um plano de negócios e análise de benchmarks.
Effectual reasoning tem os recursos como ponto de partida. As ações se desenham a partir dos recursos disponíveis, das interações com os stakeholders, com cada nova ambição que se apresenta. Não há meta ou planejamento estruturado, pois, o objetivo é produzir o melhor nas circunstâncias como elas se apresentam. Desafios, nessas condições, se tornam oportunidades.
O fator diferenciador dos dois modelos é a capacidade de planejar e por consequência a incerteza associada ao empreendimento. Causal reasoning é melhor adaptado para ambientes mais previsíveis quando é possível planejar com algum embasamento, enquanto que effectual reasoning é mais aderente à realidade imprevisível e implanejável das startups.
O processo de effectual reasoning está fundamentado nas características do empreendedor: i) quem é o empreendedor e quais são suas habilidades e diferenciais, ii) o que o empreendedor sabe, inclusive treinamento, expertise e experiência, e iii) quem o empreendedor conhece, seu círculo de relacionamento. O empreendedor segue três princípios ao ser effectual: i) privilegia o que é possível perder (em vez da rentabilidade esperada), ii) foca em parcerias estratégicas (em vez de análise competitiva) e iii) transforma adversidade em oportunidade (em vez de evitar o desafio).
Ao se concentrar nos recursos disponíveis (imediatamente ou através de parcerias) e fazer o que é possível, effectual reasoning reflete a realidade do ambiente empreendedor das startups, onde planejamento de longo prazo e análise de benchmark são exercícios limitados (para não dizer inúteis). Neste paradigma, não se precisa conhecer o futuro porque se controla o presente (diferente do mundo causal que requer planejar o futuro para controlá-lo).
Os racionais causal e effectual são diferentes e se adaptam melhor às diferentes circunstâncias: causal favorece planejamento e effectual o ambiente incerto e dinâmico. O empreendedor experiente deveria transitar bem entre os dois racionais, o que requer treino, prática e oportunidade. Causal reasoning é normalmente lecionado nas escolas de negócios exaustivamente, enquanto que effectual reasoning é normalmente ensinado à duras penas a quem dá a cara a bater. Mas bom mesmo é quem sabe fazer os dois.
Um agradecimento ao Professor Tiago Ratinho que introduziu o assunto brilhantemente, e aos meus colegas que fizeram dessa experiência mais valiosa.
(*) Sara Sarasvathy cunhou os termos Causal Reasoning e Effectual Reasoning em 2001 quando publicou o artigo “Causation and Effectuation: Toward a Theoretical Shift from Economic Inevitability to Entrepreneurial Contingency” na Academy of Management Review. Confira em https://doi.org/10.2307/259121 - vale a pena!
José Securato é CFO do digio, trabalha em investment banking, fusões & aquisições, valuation e capital raising desde 1998 e fundou a Saint Paul Advisors em 2013.
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