A atividade de Fusões & Aquisições (M&A para os íntimos) diminuiu com o confinamento, mas algumas empresas estão aproveitando o momento para fazer aquisições oportunísticas, consolidando mercados, adquirindo tecnologia e expandindo em outras geografias.
A crise de 2020, com sua velocidade e abrangência, criou um ambiente de incerteza muito desfavorável para aquisições. Dificilmente o comprador tem uma perspectiva clara do que exatamente está comprando e como cada negócio será afetado no mundo Pós-COVID. Aqui no Brasil, a maioria das transações de Fusões e Aquisições que estavam ativas no carnaval foram colocadas em espera (on hold) ou foram canceladas.
Por outro lado, a nova realidade mudou o cenário e perspectivas de várias empresas. Diversos IPOs e Follow-ons foram cancelados até que o mercado de capitais reabra, e o acesso a capital (não só equity, mas também dívida) está mais limitado. A combinação de um futuro incerto com a limitação de capital faz algumas empresas repensarem suas estratégias e considerar transações que antes eram inconcebíveis, agora consideradas bons negócios. Há também o lado defensivo do empreendedor que reconhece que a empresa precisa conseguir sobreviver esta crise para ter qualquer valor (ou seja, há de se fazer qualquer coisa para a empresa não quebrar neste momento).
O receito de fechar uma transação em termos desfavoráveis no meio de uma crise tem fundamento, mas pode ser mitigada. Na Saint Paul Advisors temos privilegiado duas estratégias que alinham melhor os termos e condições de vendedor e comprador, aumentando a probabilidade de sair uma transação: non-cash transactions e earn-outs.
Non-cash transactions são transações que não envolvem caixa, ou seja, são transações pagas com ativos ou ações. A transação é construída com base no valuation relativo das partes envolvidas, portanto mais ou menos neutra em relação ao cenário de avaliação desde que consistente para as duas partes (como deveria ser).
Já em uma estrutura de earn-out, uma parte do pagamento está vinculado aos resultados futuros da empresa comprada, refletindo o valor da empresa alvo no mundo Pós-COVID (para bem ou para mal). Assim, podemos estruturar uma transação com base no que a empresa vale hoje (que pode não ser muito), sem deixar dinheiro na mesa por fazer uma transação no meio da crise.
Os gigantes de tecnologia não perderam tempo e estão fazendo movimentos estratégicos importantes com foco em tecnologia. Facebook comprou 10% da Reliance Jio por USD5.7 bi (Índia) e comprou a Scape Tech (UK). A Amazon fez dois aportes em empresas do seu portfolio em 2020: acumulou 16.42% da Bank Bazaar (Índia) e aumentou sua participação na Capital Float (Índia).
Apesar do momento desfavorável, é possível fazer boas transações de Fusões & Aquisições no momento. Boas transações para comprador e para o vendedor.
José Securato é CFO do digio, trabalha em investment banking, fusões & aquisições, valuation e capital raising desde 1998 e fundou a Saint Paul Advisors em 2013.
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